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O Professor Rui Carita e os 510 anos do Funchal - artigo de opinião no Jornal da Madeira (26-08-2018)


26-08-2018

26-08-2018

O Funchal comemorou os seus 510 anos e agraciou com a medalha de ouro o Professor Rui Carita que tanto sabe sobre a nossa história. Do seu longo currículo destaco a autoria de mais de 50 livros e 200 catálogos, além de roteiros de comunicações editados em várias línguas. Hoje dedico-lhe este artigo, com particular ênfase na obra “O Regresso do Atlântico”, que diz respeito à história da Madeira e do Funchal no séc. XVII e que corresponde ao terceiro tomo da sua colecção “História da Madeira” editada pela Associação Académica da Universidade da Madeira,

“O Regresso do Atlântico” aborda o séc. XVII, depois de D. Filipe II ter imposto Madrid como centro de poder. Sucedeu-lhe um fraco D. Filipe III, o Piedoso, que foi rei aos 20 anos, e que pôs em curso um processo de centralização denominado, pelos historiadores modernos, de política da União Ibérica (resultado da união dinástica entre Portugal e Espanha).

Este livro leva-nos aos piratas, a valores sociais, a uma não secularização, a uma ideia de povo forte, mas também desleixado com a sua própria segurança. Na altura, o Atlântico era um ponto de discórdia internacional e a sua navegação era disputada por portugueses, castelhanos - que o entendiam como seu -, franceses e ingleses. A pirataria era comum e em 1566 uma armada francesa desembarcou na Praia Formosa e atacou o Funchal. Foi por esta desgraça que a Madeira passou a ser um dos centros da atenção da Coroa. Recebemos técnicos e verbas para a reformulação da nossa defesa.

Apesar da produção açucareira estar em declínio, o porto do Funchal “continuou a ser um entreposto internacional. Mas também continuou a ser uma boa base “para os assaltos ao Norte de África” (Hans Staden). A vida administrativa da Madeira centralizou-se no Funchal, particularmente à volta da Câmara Municipal, que registava as provisões e tratava dos principais assuntos da ilha. Depois esta câmara comunicava as resoluções às outras câmaras que “muitas vezes não estavam ali representadas.” O livro faz-nos descrições sobre a Madeira e sobre o Funchal de 1601 que criou a figura dos guarda-mores da saúde devido ao medo da peste.

No séc. XVII enquanto que em Lisboa se morria de peste, na Madeira morria-se de sífilis. “(...) John Ovington conta que o que mais o surpreendeu foi a proibição que uma certa velha dama levantou às pretensões de um jovem candidato à mão de sua filha, informada da saúde e vigor do jovem, assim como a moderação e castidade dos seus costumes dos quais constava nunca ter sofrido qualquer doença venérea”.

Pelas palavras de Rui Carita conseguimos imaginar homens com uma capa negra que escondia na bainha punhais e lâminas afiadas. Este mundo não parece ser o da Madeira em que, explica Hans Sloane, “Ninguém aqui ousaria ir para a rua depois do anoitecer, pelo perigo de ser alvejado por quem lhe tiver aversão, ou por ser tomado no escuro por outra pessoa. Contaram-me que meia moeda de oito nas mãos de um negro é suficiente para comprar a vida de qualquer pessoa”.

Os homens viviam até aos 100 anos e consumiam muitos vegetais (pela inexistência de carne). Também entendiam dispor de barcos que não eram seus para irem buscar trigo aos Açores. Trata-se da nossa desde sempre e contínua dependência externa e de hábitos de embriaguez ganhos com os ingleses.

A procura pela demarcação das esferas da Igreja, da Fazenda e das Câmaras não foi conseguida na região. Passou pelos governos de D. Filipe II e III, pela dinastia de Habsburgo e pela dos Bragança. Era visível o poderio e a prepotência de determinadas famílias que ocupavam altos cargos eclesiásticos e que interferiam, directamente, na Fazenda Régia. Era o mando e desmando na vida da região que agora vivia da produção vinícola, apesar dos esforços de D. João IV em restaurar a produção açucareira madeirense.

A vinda de uma outra dinastia ao trono de Portugal em pouco alterou a nossa vida. Continuamos a fazer mais ou menos o que queríamos. Fosse com o navegador inglês, com governadores ou corregedores régios. Inclusive, em 1668, detivemos, sequestramos, prendemos e enviamos D. Francisco de Mascarenhas (Conde de Santa Cruz) para o continente. E isso em nada perturbou o quotidiano madeirense. Na verdade, pouco ou nada nos perturba. Tanto parecemos distraídos como nos erguemos no orgulho de ser madeirense devidamente enquadrado num país a quem conquistamos o respeito.

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Link de acesso ao artigo:

Jornal da Madeira, edição online de 26-08-2018 in: https://www.jm-madeira.pt/opinioes/ver/1610/O_Professor_Rui_Carita_e_os_510_anos_do_Funchal 

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