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Fazer política com a desgraça alheia - Artigo de opinião no Jornal da Madeira (29-07-2018)


29-07-2018

29-07-2018

Não sabia bem sobre o que haveria de escrever, numa fase em que estamos todos cansados e a precisar do merecido descanso de Verão. Mas há sempre um martelo ideológico que sugere reflexão. Assim, decidi que poderia talvez escrever sobre a falta de vergonha na vida pública. Não costuma ser este o meu registo. Mas desta vez fiquei, mais do que surpreendida, indignada e perturbada pela ligeireza com que alguns políticos usam a tragédia para benefício próprio. Raramente isso funciona. Quem não o percebe não é merecedor de estar na vida pública. Quando se faz política com a desgraça alheia a tragédia política é maior.

Volto à falta de vergonha na vida pública e às palavras de um deputado que, no meio dos fogos e da desgraça grega, comparava, de forma vil, Portugal com a Grécia. As palavras exactas do deputado do PSD, Carlos Abreu Amorim, depois apagadas das redes sociais, foram estas: “Em 2011 imitámos a bancarrota grega de 2010. Agora são os gregos que nos seguem na tragédia assassina dos incêndios descontrolados – muitas dezenas de mortos, autoridades a agirem sem tom nem som, populações abandonadas, enfim...”. Continuava ainda o discurso com uma enfiada de recados e de política barata que não é suposto esperar-se de quem exerce funções na vida pública. Não há nada mais miserável do que fazer da morte e da desgraça dos outros uma arma de arremesso político. Isso não é política. É falta de respeito.

Nesta semana, a Grécia viveu um inferno, com ventos de 100km, temperaturas elevadas e fogos. Sempre os malditos fogos de Verão. Chipre, Bulgária e Espanha já lá estavam para acudir uma outra zona que não era a de Mati. Chegou, no dia seguinte, mais ajuda para a Grécia através do Sistema de Protecção Civil da União Europeia. São muitos os feridos. Demasiados os mortos. Demasiadas as cinzas. Demasiado o sofrimento para um povo que tem suportado os males da pobreza. Mas não é apenas por isto que a Grécia ou os países do Sul são mais vulneráveis. É preciso investimento para a prevenção. É preciso dinheiro para criar uma estratégia séria de combate às alterações climáticas. Alguém tem dúvidas (sem ser o senhor Donald Trump) de que elas estão aí?

A Suécia ardeu. Seria o último país que imaginaríamos ter a sua imensa floresta consumida pelos fogos. Lembro-me de as autoridades suecas explicarem-me que muito dificilmente este país sofreria com os fogos (como nota refiro a gigantesca indústria do papel, particularmente no centro e norte da Suécia onde é proibido cortar árvores com menos de dez anos). Na Suécia ainda estão destacados sete aviões de combate a incêndios, seis helicópteros, 60 veículos e mais de 340 bombeiros vindos de toda a Europa. Itália, França, Alemanha, Lituânia, Dinamarca, Portugal, Polónia e Áustria acudiram de forma imediata a Suécia.

Na Letónia foi activado o sistema Copernicus, que auxilia a Resposta de Emergência Europeia e que nos dá em tempo real o mapa de riscos. Neste momento, enquanto escrevo, o Copernicus Emergency Management Service – Mapping avisa-nos dos riscos maiores: incêndios florestais em Ática na Grécia, Letónia e no centro da Suécia. Um icebergue na Gronelândia e uma crise humanitária em Herat, no Afeganistão.

O Sistema Europeu de Protecção Civil funcionou. Portugal deixou-me com um sentimento de orgulho difícil de explicar. E, em toda esta tragédia, fiquei ainda espantada com um jornalista que insistia com um representante do governo português em saber os custos da solidariedade portuguesa para com os amigos gregos e suecos. Quanto custa uma vida humana? Custa mais ou menos que a vida de um português? Era isso que martelava na minha cabeça.

Nota: enquanto as cinzas não pousarem recomendo a leitura de dois livros no sossego do Verão, “A política em tempos de indignação”, de Daniel Innerarity e “Discurso sobre o filho-da-puta”, de Alberto Pimenta.

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Link e acesso à notícia:

Jornal da Madeira, 29-07-2018 in: https://www.jm-madeira.pt/opinioes/ver/1522/Fazer_politica_com_a_desgraca_alheia 

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