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A teoria da garrafa de gás e a meritocracia - Artigo de opinião no Jornal da Madeira (24-02-2018)


24-02-2018

24-02-2018

Comecemos pela garrafa de gás: andaria eu pelos meus cinco anos de idade e estavam os meus irmãos a saltar uma garrafa de gás, quando fui convocada a passar a prova.

Saltei a primeira vez e caí. Tentei segunda vez, mas o meu tamanho era desproporcional ao da garrafa. À terceira voltei a cair e fui, a chorar, pedir o apoio do meu irmão. Então, ele colocou a garrafa de gás na horizontal e lá passei a prova, com os aplausos orgulhosos dos meus irmãos. Esta foi a minha primeira lição sobre a ideia de mérito e de igualdade. Igualdade é tratar o outro na sua diferença e contribuir para que esse outro possa atingir os seus objectivos. O fim é o mesmo. O processo é diferente.

Teoricamente, o elemento fundador da meritocracia é o mérito, enquanto aptidão e valor moral e intelectual, que deve governar as relações sociais que se instituem numa sociedade. Consiste, assim, num sistema social que se baseia na liderança exercida por pessoas de grande inteligência ou talento, em vez de se basear em riqueza ou estatuto social. Tudo isto, teoricamente.

A nova expressão do poder, através do conceito de meritocracia, consiste basicamente nisto: o mercado de trabalho distingue os conhecimentos que temos e, a partir daí, os bens que podemos adquirir. A sua legitimação é conseguida através da distribuição social da ideologia. Tudo parece reduzir-se a uma questão de esforço e oportunidade. A meritocracia é a grande desilusão de uma promessa neoliberal que alimenta a desigualdade. Como nos diz Jo Littler, “a desigualdade é a prescrição da meritocracia, do capitalismo e do nacionalismo”. A ideia de uma sociedade meritocrática assenta na competição que produz precariedade ou, nas palavras de Hannah Arendt, a “meritocracia contradiz o princípio da igualdade tanto como qualquer outra oligarquia”.

Longe de quebrar as hierarquias de privilégio, a meritocracia serviu para fortalecer o individualismo das nações, isolou os homens e criou novas segregações. A manipulação pela ideia de mérito agravou as distâncias entre a vida e a carreira, entre o eu e o outro, entre o que sou e o que deixei de ser. Em última análise, tornou-nos pessoas piores.

No caso da educação, há uma clara relação entre a escolarização e a manutenção de classes desiguais. Temos uma educação que assenta no seu produto e não no seu processo. Neste sentido, os pontos de partida são diferentes, mas o ponto de chegada pretende-se que seja o mesmo.

O mesmo serve às questões de género. Quando oiço que a igualdade será alcançada pelo mérito penso na ingenuidade desta visão do mundo.

• Das 297 assembleias regionais da UE, apenas 17 são ocupadas por mulheres. Será que não existem mulheres, com mérito, capazes de integrar as restantes 280 assembleias?

• Precisamos de mais 100 anos, na UE, para chegarmos à paridade na representação política entre homens e mulheres. 170 anos para a igualdade de género em termos económicos a nível mundial.

• Em Portugal, dos 308 municípios, apenas 32 possuem uma mulher presidente de câmara. O número mais elevado em 44 anos de democracia. Na Madeira, elegemos a primeira nas últimas eleições autárquicas.

• A presença de mulheres nos conselhos de administração das empresas do PSI 20, em Portugal, é de 14% e a dos homens é de 86%. Na UE28 é de 23% para as mulheres e de 77% para os homens.

• A disparidade salarial, por trabalho igual, entre homens e mulheres é de 16,3% na UE. Nas pensões é de 40%.

• As disparidades entre homens e mulheres em matéria de emprego custam 2,8 % do PIB da UE.

• No mundo 75 milhões de meninas não frequentam a escola e 50 milhões de raparigas com menos de 15 anos são obrigadas a casar.

Vamos então falar de mérito? Alguém considera que estas mulheres não se esforçaram o suficiente? Perguntem, ainda, na nossa terra, se duas mulheres por dia a sofrerem de violência tem alguma coisa a ver com mérito ou com a necessidade de um maior empoderamento.

Bem sei que o mundo não é uma garrafa de gás, mas de certeza que não funciona na base do mérito. 

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Link de acesso ao artigo:

Jornal da Madeira, in: https://www.jm-madeira.pt/opinioes/ver/1032/A_teoria_da_garrafa_de_gas_e_a_meritocracia 

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