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As Mulheres do Véu - Artigo de opinião no Jornal da Madeira (11-02-2018)


11-02-2018

11-02-2018

No passado mês de Dezembro em Teerão, Vida Movahed, uma jovem mulher, subiu para uma caixa de electricidade, retirando o véu que lhe cobria a cabeça, e discursou em protesto contra a corrupção, o desemprego e a pobreza que afectam o Irão.

Movahed tem 31 anos e uma filha de dois meses. É uma mulher como outras tantas que querem o melhor para o seu país. Discursou mostrando os seus cabelos e sem o véu que lhe obrigam a usar. Foi presa. Passou um mês no cativeiro.

Desde a Revolução de 1979 no Irão que a imposição de usar o véu em público é uma realidade. Conhecido por xador ou hijab, tem a função de tornar a mulher invisível na vida pública. De não lhes permitir exibir a sua beleza. De fazê-las passar despercebidas.

Curiosamente, nos países ocidentais, o uso do hijab também não passa despercebido. Há inclusive países da União Europeia que manifestam a ideia completamente contrária à imposta na cultura árabe, proibindo o seu uso nas escolas, por exemplo. Seja na Europa ou em qualquer outro lugar no Mundo, o direito do que cada mulher deve ter sobre o que quer, ou não, usar deve sempre existir.

No dia 29 de Janeiro, Vida Movahed foi libertada. No mesmo dia outra mulher desafiou as autoridades iranianas. Também foi detida e presa. No início do mês de Fevereiro, outras 29 mulheres, de pé e em cima de caixas de electricidade, retiraram o véu islâmico e amarraram-no a um pau, acenando em sinal de paz e de resistência. Todas elas foram presas. O protesto não durou mais do que 15 minutos.

Masih Alinejad, jornalista iraniana que vive nos Estados Unidos da América (EUA) desde 2009, tem motivado as mulheres iranianas a lutarem pelo direito que devem ter a não usar o hijab. Não se trata de proibir o uso do véu, mas sim de dar a escolher a uma mulher se quer, ou não, cobrir a sua cabeça. Assim, esta jornalista criou o movimento com a hashtag #WhiteWednesdays (quartas-feiras brancas), em que as mulheres iranianas são convidadas a usar um hijab branco, ou roupa branca, como forma de protesto na obrigação de terem de esconder o facto de serem mulheres.

O Irão passa por uma onda de protestos. Com as sanções impostas em 2015, devido ao programa nuclear que estavam a desenvolver, as dificuldades estão agora a descoberto: perda de 15% da sua riqueza e valores à volta dos 12% no desemprego.

Em 2009 a tímida Revolução Verde, sob o lema “onde está o meu voto?”, não teve sucesso nem trouxe grandes progressos à situação política do país. O Movimento Verde Iraniano contestava os resultados eleitorais das presidenciais. Não deixa de ser interessante perceber alguma inspiração da Primavera Árabe (2010) na Revolução Verde iraniana.

Porquê que impedem agora as suas mulheres de expressarem essa resistência? É esta coragem que nos faz tremer perante as mulheres do véu. É a sua força que nos inspira num mundo que está do avesso.

O Irão tem 80 milhões de habitantes. Mais de metade são mulheres. Quer o Irão continuar a ignorar a fundamental força de trabalho feminino?

Quer o Irão continuar isolado? Não significa muito o acordo nuclear da União Europeia? Não será este o momento do Irão dar-nos alguma coisa? Nem que seja dar o direito às mulheres de não serem obrigadas a usar um véu. E se todas tirarem o véu? O que irá acontecer? Há prisões que cheguem?

Agora em Fevereiro, tenho prevista uma missão ao Irão. Como posso entrar com um véu na cabeça num país em que as mulheres lutam pelo direito a não utilizá-lo? Como posso eu entrar num país que prende as mulheres pelo simples facto de não quererem mais esconder-se? Como posso eu não ser solidária com estas mulheres? Não vou.

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Link de acesso ao artigo:

Jornal da Madeira, edição online de 11-02-2018 in: https://www.jm-madeira.pt/opinioes/ver/988/As_mulheres_do_veu 

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